terça-feira, 10 de abril de 2012

O Novo Insuficiente

Cada vez sonhos mais estranhos. E quando você toma o primeiro café fica pensando no que lembra. Tentando encontrar algum sinal para as decisões que serão tomadas quando cruzar a porta. Prestes a se jogar ou atravessar a ponte. Você ainda não sabe, mesmo que já tenha escolhido no seu subconsciente.  Pergunto-me quais são os sentimentos que passam nas cabeças. De quem eu lembro, com quem me importo, os que vejo nos sonhos.
A cada dia tudo fica tão nostálgico. E você cobra mais do novo. Comparando percebe que é tão insuficiente. Talvez antes, no dia anterior, há quatro anos também era.  A diferença está na criança que abita em você, ela cobra mais espaço e você reprime. Não sorri, não dá gargalhadas. Você pensa. Pensa tanto que...

Bruna França Lima


domingo, 11 de março de 2012

 Que você não sabe, e talvez nunca perceba, que eu sou você, que me construí em cima do seu corpo.
 E não há nem talvez. Agora eu já sei, vai ser. Estamos indo para lá. Rumo aquele banquinho, onde o sol morre. Lá o meu sol vai morrer, e renascer.
 Não há talvez.
 Há certeza.
 Lá vem a luz do fim do túnel.
 Estamos terminando... o túnel.


Bruna França Lima.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Quando eu parei de...

Não era para ser um texto autocrítico, mas assim aconteceu.

E naquele suspirar tradicional, você lembra e pensa, que viu, que viveu. Mas são devaneios. Ou verdades. Que quando estava sentada junto a outros, parada ali, só ouvindo a palavra alheia e olhando os gestos corporais que consigam autenticar a frases ditas. Grita para si mesmo: puta, cara chato! Será que ele sabe mesmo o que está falando?

Agora não consegue mais. Mostrar os dentes com delicadeza e, concordar.
Sai falando tudo, que você não concorda, que ele é um hipócrita de merda!

Assim, você destrói tudo que já não tinha, porque era falso, mero holograma de gente.
Pessoas que te beijam, sugam e cospem você em você mesmo. No rosto.

Mas sem dúvida, é melhor digerir o verdadeiro lado feio de alguém, do que aquele algodão doce belo com gosto de comida estragada.

Estou aqui engolindo a saliva para o que toca. Para o que eu sinto. Porque eu sei que tem racionalidade e muito sentimento. Ouço, mesmo suando frio.


Bruna França Lima.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Depois de Segunda

Levantei-me em tempo naquela terça-feira. Não era cedo, nem tarde. Eu simplesmente acordara, com vida. Estava muito feliz por ser quem eu era, as atitudes que eu tomava, ou não. A quarta seria apenas uma consequência. Já não me importava.
Fique um bom tempo olhando para o nada, talvez uma hora, talvez eternos dez minutos, vai saber, quem sabe? Não queria música, o “silêncio” de carros passando lá fora, de passos na calçada, de cachorros inquietos era o que eu tinha, e bastava. Se alguém me beijasse ao portão, ainda seria terça-feira.
Andei cem metros na rua, ventava e a chuva queria nascer do escuro. Lembrei-me como dias nublados me deixavam em êxtase. E da mãe que me amava quando eu partia, da que num ato de amor/fome decidiu que eu estaria aqui. 
Eu fui por mim mesma desde muito cedo. Mas havia momentos que me sentia uma criança encolhida, só esperando a mão que afaga, que faz o choro ser mais sentido. Isso logo passava. E eu estava pronta para mais um copo de café e raciocínio. 
Existia um quarto, construído na minha distração. Ele dava claridade ao resto dos cômodos. Queria-me sempre lá. Eu renascia dentro dele. Mas seus punhais também me levavam ao chão.
Há verdade, para quem viu, ao menos uma vez. As cortinas do meu teatro não se abrem facilmente. Pense: não é medo, nem insegurança. Talvez desanimo, preguiça do outro, da conversa do outro. Não sofro quando deixo de movimentar a boca. Total opção.

Café,
Fui.

Bruna França Lima

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Considerações Finais Longe do Fim

 Quando pensava que tinha se tornado mais um de todos os hábitos, que aquilo era rotina. Que não tinha mais olhar. Nem borboletas voando no estômago. 
 Uma imensa pedra caia sobre meu corpo. Choques de fio de alta tensão, eu descaça, pisando em águas.
 E sentir o quanto amava, mais uma vez, desde sempre. O mesmo corpo, o mesmo beijo. Podia sentir a luz que vinha dos olhos.
 Sentada ao seu lado firmei novamente nossa eternidade temporária. Uma nova dose dessa droga que me deste antes, que eu roubei, que você deixou.
 Agora estou aqui, me preparando para uma nova maré de intenso amor, que vem seguida de desentendimentos, desacordos, tornando-se um ciclo. Onde sei que não saio, nem faço tanta questão. Pois estou bem/mal neste paraíso/inferno.

Bruna França Lima 

domingo, 12 de junho de 2011

Inferno Azul

Eu queria fugir. Aquilo me irritava. E muito. Era tão oposto. Incômodo. 
Mas no fundo, eu gostava. Sim. E você sabia disso. Que aquele “jeitinho” inconveniente era o que trazia para perto. Era o imã. Sabia ser o que eu precisava. Tratava-me como um filho, ao mesmo, queria meu sexo. 
Assim, não voltei mais. Fiquei enrolada no loiro. Naquela luz que vinha do cabelo. Era como um inferno azul. Fresco. Tão impossível. Real.
Certeza que me machuca, é saber que nunca vou lhe abandonar. Que minhas portas e janelas, sempre estarão abertas. E dói saber que não posso, não devo esperar isso de você. Porque tem apenas um dos pés dentro da casa, o outro, fica tão longe, que eu não posso nem ver.

  Bruna França Lima

quarta-feira, 23 de março de 2011

Domingo

Eram Gritos. Na minha porta. Que horas são? Merda!
Atendo desconfiada, sonolenta e com um humor um tanto...
E você quase me derruba. Me beija, diz bom dia, me aperta.
Sento no sofá com um puto sono. Você fala, fala, fala.
Que eu tenho que aprender a acordar cedo, que eu tenho que comer de manhã, bla, bla, bla.
Tomo seu café forte. Você organiza meu cabelo. Morde minha nuca. Quando percebo, já não estou com a minha camiseta branca.
Estamos na sala, destruímos a cozinha, acabamos no quarto.
Agora é tarde, o sol bate na janela e nós vamos para o banho.
Você lava meus cabelos finos. Meu corpo branco, pálido.
E depois, me seca, igual mãe faz ao filho dependente.
Na cama novamente, você me esquenta, me cobre. Volto a dormir.

Bruna França Lima

domingo, 20 de fevereiro de 2011

“As forças que se emitem para universo, se chocam num grande espelho”

Pai I
Sempre popular nos grupos que frequentava. Jogador de futebol. Belo. Alto. Forte. As garotas se derretiam por ele. Tentava comer o máximo que pudesse de meninas inocentes, talvez nem tão inocentes assim. As notas no colégio eram sempre ruins. Ele nunca se preocupou. Zombava de tantos. Não ficava com meninas negras, achava nojento. Batia nos meninos sensíveis, diferentes. Chamava-os de “veadinhos”. Ganhou um carro do pai, na época, motivo de cobiça. Dirigia nas madrugadas bêbado. Os amigos o achavam “o cara”. E ele também.

Filho I
Depois da aula se trancava no quarto. Dançava enfrente ao espelho. Não suportava futebol.  O pai sempre o perguntava sobre as namoradas e ele nunca sabia o que responder. Nunca contou. Contar? Nem ele sabia o que era “aquilo”. Tinha várias amigas. Sentia-se bem com elas. Papos agradáveis. Estava sendo ameaçado no colégio. Tinha medo, mas não sabia a quem recorrer. Era frágil, doce. Violência não fazia parte do seu espírito.

Pai II
Andava desconfiado. O menino não correspondia a suas expectativas. Não trazia garotas em casa. Não era fã do “timão” (e de nenhum outro time). Não fazia musculação. Era magricela. Ainda por cima, ficava nos cantos da casa lendo.   Ler? Ah! Tanta praia ensolarada lá fora, meninas de biquínis pequenos. Logo o filho dele, sensível. Alimentava uma ilusão de que um dia o menino mudasse. Talvez fosse fase. Adolescência de hoje em dia era assim mesmo.

Filho II
Três socos no rosto. O nariz sangrava. Ele chorava agachado no meio fio. Mais que a dor física, a mental o corroia. Aquele garoto babaca do colégio. Popular. Que o papai dava tudo. O que ele ia dizer em casa? Apanhou porque era “veadinho”? Por que gostava de música clássica? Por que trocaria qualquer jogo da seleção por um filme do Almodóvar? Ele não voltou. No parque perto de casa, deitado na grama suja com o seu sangue, decidiu que pararia de pensar. Parou.

 “As forças que se emitem para universo, se chocam num grande espelho”
O pai corria em seu carro. Desta vez não estava bêbado. O filho não havia voltado. Ninguém o tinha visto.  Desespero. Jogado naquele parque, onde dormia os rejeitados pela sociedade, junto aos indigentes, estava o menino. Quando se aproximou do gramado, viu o filho que tinha traços seus, o nariz igual. Eram, sem dúvidas, pai e filho. O abraçou. Ele mal reconhecia o pai. Estava fraco, sujo, machucado. Em casa. Aos cuidados dos integrantes da família aqui não mencionados, pois há apenas um foco. Ele sangrava por dentro ao lembrar as ofensas verbais. A dor da palavra. O pai o perguntou. E, ele disse que eram as músicas, os livros, Almodóvar. O sentimentalismo. A doçura. E a cada soco que deformou seu rosto, veio uma palavra. Bicha. Bambi. “Veadinho”. O pai se lembrou da última vez que ouviu a palavra veadinho. Havia saído de sua própria boca. Calou-se

Bruna França Lima

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Dois Lados

         Uma casa                          Um cérebro
         Amigos eternos                 Boa conversa
        Romance                           Boemia

        Beijo no escuro                 Festas iluminadas
       Trabalho                           Trabalho
                                             
      Aqui tem amor                  Aqui não tem

                       Bruna França Lima

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Reflexo



E depois? Sim, depois que você conseguir?
Quando eu acordar. Escovando os dentes e não pensando em você.
Não te lembrar com o barulho da chuva. Esquecer que importância tem o seu sorriso.
Ficarás bem?
Seguir uma trilha sem teu passo. Não reconhecer tua voz ao telefone.
Apagar-te aos poucos da memória, assim como você ordena, e eu faço.
Você não diz nada. Então, eu imagino. Invento.
Talvez você só quisesse algo igual. Comum.
Moda. Estética. Bandinha famosa. Livro de massa.
E aquele choro que eu ouvi. As lágrimas jorrando com o teu desabafo.
_ Como que queria ter alguém.
Naquele lugar, sentada ao teu lado, me lembrei que eu era alguém e que podia ser tua.
Os meus olhos de leão sensível te olharam da forma mais bela que podia haver. 
Se você pudesse ver daqui, o quanto teu planeta parece artificial.
Tenha certeza que não lhe escreveria mais, se não soubesse o que tens aí.
Algo que nasceu em ti.
Sou eu dentro do espelho pra qual você olha.
Bruna França Lima

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

É Que Ainda Quero Estar Aqui Quando Você Acordar


Procurava discretamente seu rosto. Junto a prateleiras de objetos desnecessários para mim. No fundo do meu sub-consciente sabia que dentro do seu sub-coração havia som. Eu queria lhe contar sobre isso. Sobre você. O meu amor cotês reencarnado sofria. Outros diziam que eu era o ideal. Questionava-me. E fui percebendo que se encantara por outros caminhos e lados. Que aquele romantismo sem graça e ultrapassado de nada serviria nesta terra. No meio de tanta bagunça e cheiros artificialmente agradáveis eu recolhi uma lágrima. Ela queimava em meus olhos, queria mostrar ao mundo a fraqueza dos poucos. Fui massacrada pelas respostas que você não me deu. Talvez preguiça. Não adianta ouvir as bocas, eu não sou nenhum objeto de prateleira. Mas você queria eliminar tudo. E numa tarde de domingo, com sua futura vida sem mim, se queixaria e lembraria minhas raridades.  Quanto mais eu me mexia, mais lama respingava. Tinha súbitos ataques psicológicos. Queria gritar que agora eu te odiava, tu eras algo frio, igual ao resto do mundo, lixo. Mas via teu sorriso. Sorriso em outra direção, que me fazia derreter. Amava-te mais que nunca, mais que tudo. Sem você notar, eu contava, silêncio, baixinho. Ninguém podia te salvar. Todos estavam lá. Vidas secas.  Queria muito que estas palavras te tocassem o coração. Lembrastes dos mimos que me fizeste. Do olhar primeiro/último amor. Se quiseres partir para um mundo invertebrado. Sigas, é comum agora! Vou ficar no seu intimo, nos dias de perfeita lucidez/loucura, em que lhe bater Quintana, Barros ou Drummond, estou naquele baquinho, confortável, não luxuoso. Vai demorar lembrar a ti própria. Sinto. Tantas camuflagens por aí. Desculpa amor, as palavras duras, o meu excesso de humildade. E que ainda quero estar aqui quando você acordar.

Bruna França Lima

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Direito

Preciso do meu café. Mais um dia. Mais um caso. Hoje fico feliz por ter escolhido aquela profissão. Essa. Só de pensar que eu poderia ter sido médica. Olhando o trânsito me perco em pensamentos nostálgicos. Tantos amores passaram. De poucos me lembro. Um que era o sol. Outro a lua. Aquário. Sonhos. Amores prometidos. Estou bem só. Livre. Pássaro.
 Em cinco minutos, alguém anuncia. Não vou falar diretamente sobre o caso, por questões de ética. O foco da história é outro. Não esperava encontrar naquele tribunal alguém que conhecia. Ou, não conhecia. Não foi de imediato. Mas, logo percebi. Verdadeiramente uma face espetacular. Visto até então, somente por imagem. Fiquei hipnotizada.   Tentava me concentrar no trabalho a fazer. Até que me olhou. Olhar direto. Rígido a princípio.  Depois do reconhecimento, “meio sorriso”. Acabara de me apaixonar. Paixão rival. Pois indiretamente estávamos em lados opostos. Isso instigava cada vez mais. Vontade de chorar, de rir, êxtase interno.  E fiquei pensando naquele dia, em que você me fez lembrar que tudo podia acontecer. Você disse que eu era tua exceção. O que era ser à exceção de alguém? Eu fui. Lembro-me que, foi algo como o coração explodindo em batimentos desregulares. Havia pensando tanto. Tive sonhos. Mas, voltando à realidade. Numa súbita expressão você mostrou que não estava para brincar. Eu acordei. Querias me ver no chão, a observar teus sapatos. Foi a oposição mais sensual que eu presenciei. Não contarei aqui quem ganhou o caso. Como já havia dito, o foco da história é outro.

6:00h

Teus braços me esquentam nesta manhã de quarta.
Não dormirás só.
Nunca.
Bruna França Lima

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Partituras Imaginárias

Perco-me observando a estrutura do local. Quase todas as noites por aqui. Não reclamo. Na verdade, gosto bastante. Sempre cheio de pessoas, vozes e cheiros. Penso no que vou tocar enquanto afino o violão. O garçom, amigo de convivência, me traz um álcool forte. Será que meu sorriso boêmio arrancará delicadamente algum suspiro?  Alguns jovens entram. Logo o bar está com uma quantia considerável de pessoas. Começo a tocar. Canções que lembram os amigos, cada música um. Eram grandes personalidades desconhecidas. Sinto um olhar safado da platéia. Fico feliz. Paixão de uma noite. Apenas. Eu sempre vou embora antes que o sol nasce. Nunca deixo números de telefone. As vezes toco uma música filosofando. Sou eu e me cérebro. Quando isso acontece, a canção se faz como uma casca, cobertura. Viajo durante minutos. Desperto com ruídos irregulares do violão. Outro grupo entra no bar. Devem ser médicos ou coisa assim, todos de branco. Meu copo é completado novamente. Sinto um cheiro/lembrança. Esse perfume. Amor antigo. Verdadeiramente amor. Antigo. Fiscalizo o ambiente, mas não consigo reconhecer nada. O cheiro me motivou tocar Cartola. Aquela música que só ouvia quando amava. Quando amei. “O mundo é um moinho”. Se esse amor estiver aqui, não há como não perceber uma inquietação, meu subconsciente informa. Canto. Alguém de costas pra mim, vira-se imediatamente. Pude ver sua face, quase escondida por cabelos desconhecidos. Olhando para o peito, consigo imaginariamente vê-lo vibrando. “Vai reduzir as ilusões a pó”. As lembranças ressurgem, estas, que você me obrigou a esconder. Toco Nana Caymmi, Gil, Caetano. Sua pele se mostra vermelha. E eu reconheço isso, sinais de nervosismo. Imediatamente lembro dos arrepios pelo corpo quando te mordia o pescoço. As pessoas seguem para suas casas. Vão se dissipando aos poucos. Inclusive o pessoal da tua mesa. Você não me olha mais. De costas, vejo sua taça levantar com vinho tinto. Até que restam quatro pessoas no bar. O dono, que nunca lembro o nome. Aguinaldo, garçom fiel, cabelo sempre penteado para o lado. Eu. Você, com a boca tingida pelo vinho, qual não vejo daqui, mas imagino. Aguinaldo se recolhe para cozinha. O meu patrão esquecido começa a preparar o fechamento de caixa. Pergunto a você qual música quer agora. Você diz que a que peça perdão. E se levanta. Olha pra mim com olhos de lágrimas, boca com cor acentuada. Caminha com a taça na mão. Taça pela metade. Andar tão peculiar, que, com poucos metros percebe-se o motivo de tantos sorrisos que já tive. Uma cadeira frente ao palco. Sensualidade ao se sentar novamente. Começo a cantar Calcanhotto. Suas pernas dentro do jeans me atraem. Sinto que você percebe minha excitação. Logo tuas mãos tocam meu ombro. Não perco o ritmo do violão, isso com muito trabalho. As mãos deslizam no pescoço. Orelha. Meus cabelos. Você substitui o violão. Agora é o teu corpo que eu toco. Os meus dedos leem partituras imaginárias. Você produz sons desafinados. E começa arrancar minha blusa de linho. O vinho percorre meu corpo pálido. É secado por uma língua rígida, que tanto já penetrou em minha boca. Não há mais roupas. Meu corpo nu. Seu corpo nu. Cadeira. Violão no chão. Uva e álcool escorrendo em mim. E vamos afinando o som. Os gritos. Gemidos. A platéia de cadeiras vazias nos assiste. O meu corpo coberto por um linho rasgado. E o seu sobre este. Beijo sua testa. E digo que demorou. Você me diz que se perdeu no caminho. Estamos em casa.
Bruna França Lima

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Folha Do Diário


 Olho o espelho agora. Olhos inchados. Já tentei dormir. Não vou contar pra ninguém. Nada de pena. Estou sem chão psicológico. Queria poder ir para um bar agora, tomar todas e pegar geral. Mas não sou assim. Já fui. Eu e o Cazuza novamente, a voz dele ecoa pelo quarto. O dia não tem sol, posso ver quando olho pela janela. Vi uma foto sua, antiga, você ainda tinha ferro nos dentes. Acho que você não me ama. Claro que não ama! Estou com vergonha. E medo.

Me senti mal. Um pedra no meio do caminho. Dentro do sapato.

Queria poder te contar como eu estou com medo.

Vou trabalhar!

Bruna França Lima

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Quando Você Pensar Não Me Amar

 Um dia, daqueles que o céu cheio de nuvens escuras, você abraçará o próprio corpo e soltará lagrimas salgadas. Pensando que o amor acabou, que tudo era uma ilusão cerebral. Você me verá em seus pensamentos e se questionará. Quebrará os móveis, abrirá a geladeira todo momento, comprará inúmeras barras de chocolate. Duvidará do meu amor por você e de seus próprios sentimentos. Dirá aos amigos próximos que se enganou. Mudará a chave da porta.
 Ficarei em casa. Neutra. Deixarei telefones e meios de comunicação ligados. Sentarei numa poltrona, beberei café em xícara branca. O barulho do relógio me machucará a cada instante que você não vem. Cruzarei as pernas, depois os braços. O chão do apartamento ficará gasto. Terá incansáveis passos de madrugada. A televisão será desligada, ligada, desligada em poucos minutos.
 Quando tudo estiver perdido, e meu corpo desfalecido na cama não tiver choro. Não tiver riso. Nem nada. Ouvirei a campainha. Barulhos inquietos de sapatos atrás da porta. Depois teu olhar mais apaixonado, teu abraço mais longo, o beijo mais gostoso, o sexo mais perfeito.

Bruna França Lima

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

5:30 AM

A cama ainda está quente. Sinto o teu cheiro no travesseiro. Você deve estar no banheiro. Ouço o barulho da água caindo na pia. O dia está nublado. Há pouca claridade no quarto. Você volta com o corpo nu. Sinto tua pele gelada. Você me abraça, meu corpo é quente, sempre. E adormece com o cabelo em desordem, braços e pernas grudados em mim. Minha expressão é de alegria no semi-escuro do quarto.

Bruna França Lima 

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Sem Nome

 Vivo na ilusão. Meu sorriso bobo, tão ingênuo, contra o mundo. Dá vontade de parar. Apagar a luz. Zero. Sou covarde, tenho medo da dor. Então, respiro. Durmo, acordo. Tic-tac. Um cão sarnento. Máquina quebrada.
 Vejo a porta fechada. Ninguém ama ninguém. Só merda. Olho pela janela. Som do pássaro lá fora. Geladeira de água. Com água. Dentro d’água. O tênis aperta. As costas doem. Não há ninguém no quarto. As lembranças como fumaça do cigarro mais barato. Tosse e tuberculose, que eu não tenho. A gripe que nunca vem. Vivo.
 Pedem-me favores. Mude a roupa. Mude a voz. Mude o comportamento. Vivo usando as pessoas, e elas retribuem com a destruição. Sugam meu cérebro no canudinho de coca-cola. Família, amigos, a puta que os pariu. Penso numa seringa. Qualquer. Cheia.
 Até quando, eu não sei. Eles gritam, eu fecho os olhos. Ouço.

Bruna França Lima

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Esmalte amarelo


Sabe aquele dia, que você acorda e consegue ver o mundo mais que cru na tua frente? E percebe como as pessoas são mesquinhas? Vivem falando da vida alheia, com o próprio telhado desmoronando a cada segundo. Tem gente que consegue rir de tudo isso, os sábios. Já eu, penso em me matar. E penso na morte. No tranqüilo do vazio. No silêncio. Paro.
 Sento na cadeira e olho através do vidro. Os monstros consumidores na minha frente. E a menina que me entrega o pão, tem as unhas pintadas de amarelo. O máximo que ela pode chegar num papo crítico, é falar sobre o voto que vendeu na eleição passada. As pessoas falam sobre novela, moda, maquiagem, penteados para cabelo. Novela, moda, maquiagem, cabelo. Novela... Minha cabeça explode e ninguém vê.
 Eu choro à noite. Não tenho vergonha disso. Eu me encolho na cama e choro. Porque sei que no outro dia pode ser pior. E aqueles vermes de novo. Tem alguém que diz me amar. E quando nos encontramos, estico meu sorriso mais largo. Eu fico feliz. A maioria vomita. Hipócritas!
 Eu quero uma rede e um bom vinho!
 A folha está encharcada de lágrimas.
 Paro de escrever. Sono.

Bruna França Lima

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Dos Cabelos Brancos ao Vazio



















Está sujo
Tudo
E as cabeças
Novas
São ocas

Os cabelos
Brancos
Generais, idealistas
Choram
Juventude vazia

Sento-me no banco
Praça
Pernas cruzadas
Viro a página
O vento não bate

Bruna França Lima

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Um sonho



 Foi na semana que você resolveu me esquecer. Eu estava uma merda. Nem conseguia sentir o gosto do café. Alguns sentiram pena. Você não tinha me abandonado, ainda. Mas o teu esquecimento, a tua indiferença. Eles queriam a minha opinião na cor, no texto. Minha concentração havia tirado férias para o Alasca. Usava a calça preta, de sempre. Você não ligava. Os livros, os vídeos, nas prateleiras, na TV desligada. Eu me sentia em forma, não havia doença aparente.
 “Falta de ar. Ar. Ar. Socorro! Acordei num hospital. Vi minha mãe. A imagem estava um pouco destorcida. Ela sorriu triste. Meu pai disse que logo eu ia para casa. Ninguém me contou o que eu tinha. A minha pele estava mais pálida do que de costume. A enfermeira vinha me visitar com frequência. Dois dias de hospital. Eu sabia de tanta coisa importante, países, músicas, livros, mas não sabia de mim. Minha irmã entrou no quarto às 15:00h, eu soube porque estava olhando o relógio na parede, como a última atividade restante. Ela veio devagar, pegou minha mão, beijou minha testa e disse que me amava. Começou a chorar e se retirou rápido. Então, comecei a me preocupar.
 Alguns parentes apareceram. Eles olhavam pra mim e diziam que ia dar tudo certo. Que merda é essa? Por que ninguém me conta? Queria xingar todo mundo. A enfermeira mandou todos ir embora. Deu-me um remédio para dormir. Apaguei.
 Acordei com uma mão no meu rosto. Você tinha os olhos inchados. Eu abri um sorriso frágil. Você disse que me amava. Avisei que tinha comprado um presente pra você, e ele estava na gaveta do criado mudo. Você disse que queria recebê-lo das minhas mãos. Eu já não tinha mais certeza disso. Perguntei o que eu tinha e você respondeu que os meus amigos estavam esperando para me ver. Eu vou morrer? Você falou que minha mãe tinha lhe tratado bem. Parei de perguntar.  
 Acomodou-se na cama comigo. E começou a contar as novidades. Uma semana sem me ver, acumula assunto. Os meus olhos estavam pesados. Vontade irresistível de fechá-los. Mas e a tua imagem, ficaria só na lembrança? Resisti, para observar tua beleza. Sua voz estava cada vez mais baixa. Você me deu um beijo nos lábios. Não estava mais conseguindo abrir os olhos. Senti tua boca se distanciar. Você começou a chamar por mim. E eu não te enxergava mais. Era só a voz. Que ia abaixando o volume, até que...”

 _ Sim, este foi um dos sonhos da noite passada. O outro era que eu dava aulas de cinema ao Glauber Rocha. Achei tão impossível que, preferi nem contar.

Bruna França Lima

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O que eu queria te dizer

Eu te prometo. O abraço no escuro. Consolar-te nos dias de lágrimas. Estar sempre junto, mesmo longe. Prometo contar bobagens só para ver o teu sorriso branco. E dizer palavras duras quando necessário. Proteger-te do perigo inofensivo. E te levar ao delírio com a minha fome do teu corpo. Cantar no outono para aumentar a preguiça. Cantigas de neném. Ser sempre o teu bebê/leão. O vinho nos sábados de alegria. Prometo o meu corpo quente para você dormir. E minha boca vermelha como uma bala. Uma bicicleta no final do ano. A viagem para o Paraguai. Eu prometo causar inveja aos outros casais. Prometo um amor imperfeito. Uma coca-cola no final da tarde. Destruir a tua roupa com os meus dentes. Respeito. Um CD da Nana Caymmi. Um show do Titãs. Um abraço na dor. A parceria na criação de um hamster, papagaio ou criança. Prometo te acordar tocando uma música brega. Aprender junto. Uma juventude eterna. Dar-te um beijo de dentadura aos 80. E acreditar em Deus, só para cultivar a possibilidade de te encontrar depois daqui.  Eu te prometo. Eu me prometo. Amor.

Bruna França Lima

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Nada


Sou metade rockeira
Sou quase brasileira
Um pouco vegetariana

Um pouco religiosa
Sou quase azul
Sou metade ateu

Nunca por inteira
Nada
Sem partido

Ponto preto
Em folha preta

Nada sou


                             Bruna França Lima


quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Eu? Pode ser!


Tua cabeça pesa. Você carrega a casa, os móveis, teu chefe. O dia segue. As pessoas andam nas ruas para rumos que você não sabe. E nem quer saber. Toma café, porque café dá prazer. Você lembra a noite passada, a solidão, o vento não entrando na janela. Chora só. Ninguém te abraça. Ninguém te protege. Você quer ser cuidado. Mas não, nada. Os sapatos sempre apertados. E você pergunta por Deus. Os capitalistas falam pra você ir à Igreja. Você acha isso sujo. Mas espera, você também está no sistema, não tem como fugir. Acaba com suas virtudes, aquelas que seus pais ensinaram, percebendo que eles também já fizeram isso. Liga a televisão. Desliga. E manda tudo se foder. Grita “porra” no banheiro, ri sozinho. Senti dó, depois raiva. Lembra de alguém que não pensa em você. Fica feliz por ter conseguido parar de fumar. Pode ser que demore mais para morrer. Mas, o porquê de tudo isso? Por essa vida de merda que você leva? Chora, ri, vomita. Há fumaça, e quando não há, tem poeira. As pessoas fazem aula de Francês, sem saberem Português. E tudo roda, nesta roda podre. Alguém fala que o Brasil é um país democrático. As mulheres assistem a novela, os homens também. No sinal, o rapaz pede carinhosamente com um revólver apontado para teu crânio, a carteira, o relógio, calcinha, cueca. E você respira, consequentemente tosse. Você não quer mais um cartão de crédito, a moça insiste, você diz que não, não, não! E vai parar no hospital, ataque cardíaco. Sobrevive fodido. Compra um labrador e vai morar no sítio com tua avó. Alimenta galinhas pela manhã. Para de tossir.

Bruna França Lima

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Texto Perdido





 Gosto muito de ser observada. As pessoas te olham, te acham esquisita, te de devoram, tudo apenas num  simples piscar de olhos. Mas, saber ser observada é uma arte. Você tem que perceber os olhares e mostrar-se distraída. Fingir não ver ser vista. Talvez isso tenha algo com o signo. Os Leoninos gostam de,... é ...  Não vou falar sobre eles, se começar não paro.
 É muito importante saber usar os gestos certos em determinadas ocasiões. Pessoas interessantes sabem apreciar um belo toque das mãos no copo. O simples ato de beber uma coca-cola pode levar alguém ao delírio. Tudo conta. Você não precisa usar roupas caras e nem as que estejam no auge da moda. Basta ter um senso de harmonia e liberar sua personalidade. Há tanta complicação. A vida é mais simples do que parece.
 Adoro pessoas mais velhas. Oitenta anos é a idade. Tenho a honra de conhecer senhoras e senhores muito dignos. Eles são pacientes, sábios, são tantas as virtudes que prefiro apenas ficar nestas duas. A minha bisavó tem a mente mais ampla do que muitos primos jovens que tenho. É questão de levar a vida de forma mais simples. Nossos amigos de oitenta já pegaram o jeito, e dão à partida  sem afogar o carro.
 Sinto-me um tanto póstuma. Sei que sou uma criança. Um bebê. Mas, mesmo assim, vista a minha geração e as que estão para vir, os que carregam bandeiras transparentes, os que não têm ideologia. Não sei se sou careta ou moderna de mais.
 Sei que cada dia que passa lembro-me mais o jeito que você introduz tua língua úmida na minha boca. E molho só de lembrar como me prende em tuas pernas. Estou deixando vícios desnecessários para trás. Descomplicando a vida. Um beijo teu, calado, na escuridão noturna me basta na madrugada.

Bruna França Lima

                                                                    

quarta-feira, 8 de setembro de 2010


 Uma hora da manhã. Estou de meias, e meu cabelo uma bagunça. Você me ligou até cansar. Há trinta chamadas não atendidas no meu celular. Tomo um copo de vinho tinto. O gordo manda um beijo pela televisão. Penso se espero a luz do dia chegar ou parto. Minha mochila está atrás da porta. Mais vinho no copo. O carro está lá fora. Frio. Procuro minha calcinha da sorte. Mochila nas costas. Partida no carro. Coloco Arnaldo Baptista para tocar. Tocar para frente e ver onde vai dar. Uma cidade pacata já me basta. Você se enganou. Pensou que eu era tua propriedade. E quando o álcool não desce mais, eu vomito. E você se transformou no meu vomito. Boa sorte baby! Suma!


Bruna França Lima


sábado, 28 de agosto de 2010

Brasil mostra o teu coração!


Somos todos manipulados, pelos governantes, homens de gravata e a mídia, que é a ferramenta essencial. Não se iluda pensando que você não é, pois no Brasil o caso é muito pior. Nossa educação é péssima e o governo não está nenhum pouco incomodado.
 Os pais educam seus filhos com a educação que receberam e a televisão faz o resto. Pronto, temos uns dos motivos. Sociedade preconceituosa, sem ideologia e jovens revoltados.
 “José, homem de família, casado com Maria. Carrega o orgulho de conseguir pagar os impostos que nunca o deixam crescer economicamente. Mas com honestidade criou seus dois filhos, Marquinhos e Ana. Filhos lindos! José não sabe o que fazer, Maria chora o dia inteiro, o motivo de tanta tristeza é que Marquinhos falou que gosta de meninos. O que fazer meu Deus? O que as pessoas vão pensar? E a Igreja? O pastor tem a verdade, e falou que isso é pecado. Tô perdido! Marquinhos é um bom menino, nunca brigou na escola, sempre foi estudioso, não bebe, não fuma... Mas isso, não dá! Não posso aceitar essa PUTARIAAA! O João lá da venda, falou que um primo dele tinha um filho DOENTE assim, e teve que ser na base da pancada, o menino aquietou, virou MACHO, não fica mais com homem, nem com mulher, não fala mais, não ri, se enforcou na árvore do quintal da casa. O pai achou melhor assim, morto do que um pecador. Deus seja louvado! Essa vida de BIXA não dá certo, o menino não vai arrumar emprego. Não quero bater no Marquinhos, é meu filho e eu o amo tanto. Mas se não tem outro jeito...”
 Nós sempre nos preocupamos no que os outros vão pensar. O Brasil se preocupa como o exterior verá seu crescimento econômico, mas esquece como anda a qualidade de vida dos brasileiros. Nas famílias não são diferente. Fomos educados assim pelos pais, a televisão só acaba de nos destruirmos, mostrando seus valores de merda. “O importante é o exterior e como somos vistos”. Então baby, muita maquiagem, cirurgia plástica, ropinha da moda,...
 Ninguém conta com um imprevisto como o do José, ou outros que podem surgir. Não estamos preparados para isso. O sentimento foi jogado de lado. A má educação, má formação, violência são as mães da nossa sociedade. Os religiosos dizem que o mundo está acabando. É claro que está! Estamos fazendo tudo errado, desde o início. Estamos destruindo nossa própria espécie.
 Até quando vamos ter que aprender com o sofrimento? Respeitar os homossexuais só quando se tem um filho gay, isso se não o matarmos ou abandonarmos.
 Vamos acordar, cobrar dos nossos governantes, exigir vida de qualidade, colocar o amor como prioridade, respeitar o próximo...
 Tudo que sabemos de cor e não praticamos.
 Temos um país lindo, uma natureza maravilhosa que nos dá uma ótima condição de vida. Só depende de nós a mudança.

 Brasil mostra o teu coração!





Bruna França Lima



quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Tchau!


 Odeio que gritem comigo. Odeio quando você grita. Coloco minha cabeça entre as pernas, tampo os ouvidos. Nada resolve. Piro a cada segundo, a cada bombardeio aos meus tímpanos. Você chora. E fala, fala, fala...
 Vou embora, sim, decido e vou embora. Chega! Cansei merda! Pego duas camisetas, uma calça, coloco em qualquer sacola e saio. Bato a porta. Você dá seu último grito estridente. Ponto.
 Três dias num hotelzinho barato. Quero as minhas coisas. Sinto fome da tua comida. O perfume do teu cheiro. Tuas coxas prendendo minhas pernas. Preciso me vestir. Cadê minha escova de dente?
 Toco a campainha do meu apartamento. Puta sacanagem! Você abre rapidamente. Olha-me com esperanças. Digo que vim buscar minhas coisas. Entro. Sinto teu cheiro ao cruzar a porta. Você quase me come com os olhos. Vou para o quarto. Cadê a meia que minha avó me deu? Você ri triste, encontra e me entrega. Há um contato entre nossas mãos. Tudo quase desaba. Mantenho-me firme e determinada. Você fica na porta do quarto me observando. E quando vou sair, para ir ao banheiro pegar minha escova do Doug, paro na porta. Sinto o calor do teu corpo. Tenho de perto sua boca vermelha e estes dentes brancos que o dentista tanto cuidou para que se tornasse uma das maravilhas do mundo. Mas, sigo. Ainda assim, sigo.
 Encaminho-me para a porta da saída. Minha mala está leve. Deixa-me a esperança de ter esquecido algo que me faça voltar novamente. Queria levar teu sexo comigo, tuas noites maravilhosas, teus sussurros. Não posso. Transpiro. Meu corpo me queima. Sei que se me virar vou ver você ali, quase sem roupas, confortável sobre o piso do meu apartamento. Você, que é minha propriedade. Perco o controle.
 Jogo a mala no chão. Te olho faminta. Você ri e me chama. E é nas paredes geladas, no chão, na pia. E é meu corpo. Tua boca, teus dentes cravados em mim. Saliva. Gozo. Amor. Sexo. Você geme. Eu grito. São risadas. Choro.
 N’outro dia me levanto. Me visto. Pego minha leve mala de esperanças e sumo. Preciso dar um tempo desta vez, você anda fazendo de mim o que quer. Acho que vou viajar. Bato a porta.


Bruna França Lima

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Relato de Uma Semana


 No meio daquela cena caótica, com todos aqueles carros soltando escuridão, e as pessoas gritando, falando, com todo álcool, e alucinações, cigarros, vidas modernas, você com sua independência e vontade do novo, eu. Sim, eu. Estou ali parada. Poste. Olhos fixos em você, buscando seu olhar. Você por acaso, me vê. Neste instante, há um leve sorriso discreto. Encontramos-nos juntos a corpos frios. Que nada sabem e tanto dizem. Onde o desejo que se torna necessidade não tem vez. Estamos ali. Você sorri pra mim. Conectamos-nos a distância. Ninguém vê. Nós, no campo onde as pessoas sorridentes juram demasiadamente te amar. Algumas nem se prestam a isso. Mas eu estou ali, te observando, te velando, te ninando. E te entrego meu sorriso. Com pureza te falo do meu desejo que se tornou necessidade. Que descobri em você as coisas que Drummond poetizava e entendi a complexidade do simples de Manoel de Barros. Só em você. Com lágrimas de alegria falo que te amo. Não demasiadamente. Mas amo. E você por um instante deixa os planos modernos, os falsos sorrisos de companhias falsas e me encontra. No abrigo que construímos na simplicidade. Tudo se acalma, damos paciência ao amor. Só o amor verdadeiramente merece paciência. Deixamos para trás as filas do banco, filas do pão, da carne. Tanta paciência gasta com a telefonista da operadora de celular. Agora só o amor pode. Tempo a ele. Calma. Você teme o fim, e quer correria para não ter desperdício. O amor não precisa disso, ele se faz na calma. E a felicidade dura o instante. E ela passa. Você passa e vai. Chega segunda-feira. O tic tac do relógio destrói os tímpanos. A fila do banco, do pão, da carne. Epa! Inventaram outra fila. E mais uma, e outra... Durmo e acordo. Como alface. Você longe. A telepatia não ajuda. O telefone não sacia. Tudo para em mim e o mundo explode em movimentos. Sigo marcando um xis nos números do calendário. Comendo alface. Esperando você comprar novamente a passagem e me ligar reclamando que está muito caro. To sem grana! Mas logo estará comigo, me encarando no meio da bagunça.


Bruna França Lima 

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Café da manhã





















Num surto que me encaminha a gritar por você
Calo-me
É tanta euforia, vontade, desejo
Aquieto-me
Meu coração dispara, vou perdendo o controle
Respiro
Quero falar, e as palavras atropelam como os espermatozóides tentando fecundar o óvulo
Acalmo-me
Depois do turbilhão de vento que nos leva para o futuro
Consigo
E você me passa a manteiga que está no centro da mesa


Bruna França Lima

sábado, 24 de julho de 2010

O Rio


 A vida é igual a um rio de águas correntes. Águas que vão sempre te levando. A não ser que você se enrosque em algo, como o galho de uma árvore, das tantas que fica nas margens. Esse galho pode te segurar levando você a acreditar que nunca mais se soltará e que todas as águas vão passar por você até o rio secar. Mas aí, o galho se quebra e você volta a descer pela correnteza, pensando onde vai parar. Até uma nova árvore, e outra, e outra...  Ás árvores são as paixões, que pensamos durar para sempre, até as lágrimas fortes nos levarem. Hidrofobia faz parte da viajem. E você se destrói, pensa que vai morrer afogado. Lágrimas e águas vão se misturando com a correnteza forte. De repente, você sente algo novo, sólido, em que também pode se segurar, que te dá mais estabilidade do que aqueles tantos galhos que te deixou seguir só. É uma pedra. E a pedra se chama amor. O amor não balança como o galho, mas é alegre. É tão firme, que não há medo de um novo afogamento. Mas deve-se saber segurar com muita precisão a pedra amor, para que você não escorregue, não a deixe para trás. Alguns infelizes as deixam por descuido, voltam ao turbilhão de águas e seguem atrás de novas pedras, se contentando com galhos temporários. O mais triste é quando você passa pelo rio e nada verdadeiramente segura, corre por águas escuras e turvas e morre no poço final. Corpo boiando sem vida.


Bruna França Lima

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Cabra-Cega





















Brincávamos de cabra-cega
Sempre um tinha os olhos vendados
Ando pelas calçadas e olho as ruas
Vejo aquelas crianças da infância
Elas não veem nada
E falam muito
Do que não conhecem


Bruna França Lima